Category: Poesia

Uma foto e um poema (16)

Fito esses montes,
onde o crepúsculo
é um laivo de sangue,
um eco de xisto…

Procuro, na luz rubra,
um grito de ave,
um corpo em chama
que me restituam a voz
e me devolvam à vida.

Luísa (Letras são papéis)

Um pouco triste :-(

Obrigado, moça pelas palavras sobre a foto da “nossa” serra!

Poema aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre,
olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes – (Sátira aos homens quando estão com gripe)

Uma foto e um poema (10)

Farol distante

Há um mistério a descobrir
quando a memória
se apodera das imagens
que denunciam
pedaços da nossa
…história…

São cores vibrantes
rubras de paixão
intactas de dor
inscritas na mente
fragmentos de sombras
dançando num mar bravio
raios de luz brilhando
no sopé de um farol
distante .

São momentos que trago
num vai e vem de marés
sonhos
adormecidos
nas madrugadas sombrias
São manhãs chuvosas
onde o meu corpo
espera por ti
na solidão
de um banco
vazio.

São Gonçalves

Obrigado São!

Desejo

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

Victor Hugo

Encontrado aqui


Uma foto e um poema (5)

Quase um poema

Quero falar-te do silêncio
e de como, nas horas de degredo,
amor e ódio se confundem.

Quero contar-te como, nas esperas,
a alma se perde em devaneios,
como as mãos se afundam, esquecidas,
no regaço, sem vida que as eleve.

Quero ouvir-te clamar,
aos quatro ventos e aos deuses todos,
que o amor é só um jogo que eles
inventaram para iludir a solidão.

Deep

Ps. desta vez repesco um poema da amiga Deep, que ousei colar sobre uma foto minha… Obrigado amiga da serra, da terra do Pai Natal.

Uma foto e um poema (3)

Uma foto e um poema (2)

Dedos


São de metal tuas mãos
Não de pedra.
O metal aquece mais facilmente…. não sei…
Sei que é entre os teus dedos
Pousados no meu rosto
que a água das minhas lágrimas
corre.

Tess, 6.12.2010

Obrigado, Teresinha :-)

Uma foto e um poema (1)

Clique na foto para ampliar…

Ps. Embora tenha numerado com “1″, existem já outras fotos com  poemas, no “ninguém lê”, que recuperarei nos próximos dias para esta nova rubrica…

Pequenas Viagens

Um texto de Teresa Pombo sobre uma foto minha.
Obrigado, amiga.

Em busca de frescura


Levei o barco até meio do rio
E esperei que a tarde caísse.
Esperei que o Sol
Abrandasse essa sua força
Que mal me deixa respirar
E mergulhei as mãos na água.

Levei o pensamento
Até meio do rio
E esperei que as recordações
Se abandonassem aos meus pedidos.

Levei o coração comigo
E esperei que acalmasse.
Trouxe de volta calma e frescura
E apeteceu-me ficar no meio do rio.
Fiquei.

Levo este barco até meio do rio
Tal como cheguei a meio da vida.
Pensamento e coração.
Ondas, marés e tempestades.
Margens, portos, ancoradouros.
Viagens.

E do meio do rio,
Olhando o azul da água,
Sentido a frescura da sua água,
E a carícia do seu ondular,
Regresso à margem.

Trago o barco e
Volto do rio.

Tess, 6.07.2010

Ps. Poema escrito hoje pela amiga Teresa Pombo

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