Category: Poesia

Uma foto e um poema (4)

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedião

Publicado em: 9 de December de 2010

Uma foto e um poema (6)

Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O “preto no branco”
E os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!

Pablo Neruda

Publicado em: 11 de December de 2010

Passei toda a noite, sem dormir…

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro

Publicado em: 30 de November de 2010

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Carlos Drummond de Andrade

Publicado em: 23 de September de 2009

João Negreiros – O Outono visto pela janela, in “a verdade dói e pode estar errada”

Uma foto e um poema (20)

O amor e o tempo

 Amar é compreender a impermanência do tempo,
a sua relatividade.

É rasgar os estúpidos calendários,
partir os imponentes relógios,
fugir da prisão das horas que passam,
porque o tempo de quem ama tem outra dimensão.

Mais vale um amor intenso de 48 horas
do que uma vida insípida partilhada por décadas.

Dora Assis

 

 

Espero-te

banco
Espero-te
Não sei se mais
Agora
Do que
Antes
Mas aguardo-te.

Contemplo as ondas
Que vêm…
E vão….
E voltam…
Segura da luz
Do teu farol
Que não se apaga.

Não receies.
Não receies a intempérie
Porque gosto do mar assim
Vês como se esconde?
Vês como estou segura aqui?

Espero-te,
Aguardo-te,
Não sei se mais agora
Se menos antes
Mas…
Gosto de esperar por ti
Porque sei que chegarás!

Tess, 05.08.2009
PS. Poema de Teresa Pombo para uma foto minha….
Obrigado Teresa

Publicado em: 5 de August de 2009

Uma foto e um poema (19)

À espera

Cruzava
aquele caminho
centenas de vezes
vezes sem fim.

Na sua memória
cantava de cor
e salteado
esse trajecto.

Nas pontas dos dedos
contava o rosário da vida.

Viúva
do seu estado de ser
assumia.se.
À espera…
sentada
resolvia fingir
que
não
existia
o passado.

Jota Manuel

Uma foto e um poema (18)

Palavras de Maria José, Jota Manuel e Antónia Gonçalves, obrigado.

Uma foto e um poema (17)

Arame.

Sentia-te dura… agressiva até,
para com a minha pessoa.
Almejava-te sentir de novo
nem que enferrujasse o meu sentimento.

Naquela cerca de arame farpado
ficou presa a manga da sua blusa
e o seu destino, a bem dizer…
Riu – não sabia se da blusa
que teria que substituir,
se da vida,
à qual teria que dar outro rumo.

Soltou, com cuidado,
a farpa,
prendeu,
com afinco, a vida e,
transposta a cerca,
seguiu o caminho
em direcção ao aroma
sempre amargo das giestas.

Volta para me enleares, por favor.
Elevo com frequência descomedida
o trapo desta blusa rasgada…
mas com cheiro de ti.

Qual giesta
no espelho
das emoções
te revejo.
Fazes me falta.

(Jota Manuel e Lu Félix) 20110313

Obrigado Jota Manuel e Lu Felix

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