
Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
António Gedião
Publicado em: 9 de December de 2010

Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O “preto no branco”
E os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
Publicado em: 11 de December de 2010
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
Alberto Caeiro
Publicado em: 30 de November de 2010
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Carlos Drummond de Andrade
Publicado em: 23 de September de 2009
O amor e o tempo
Amar é compreender a impermanência do tempo,
a sua relatividade.
É rasgar os estúpidos calendários,
partir os imponentes relógios,
fugir da prisão das horas que passam,
porque o tempo de quem ama tem outra dimensão.
Mais vale um amor intenso de 48 horas
do que uma vida insípida partilhada por décadas.
Dora Assis

Espero-te
Não sei se mais
Agora
Do que
Antes
Mas aguardo-te.
Contemplo as ondas
Que vêm…
E vão….
E voltam…
Segura da luz
Do teu farol
Que não se apaga.
Não receies.
Não receies a intempérie
Porque gosto do mar assim
Vês como se esconde?
Vês como estou segura aqui?
Espero-te,
Aguardo-te,
Não sei se mais agora
Se menos antes
Mas…
Gosto de esperar por ti
Porque sei que chegarás!
Tess, 05.08.2009
Publicado em: 5 de August de 2009

À espera
Cruzava
aquele caminho
centenas de vezes
vezes sem fim.
Na sua memória
cantava de cor
e salteado
esse trajecto.
Nas pontas dos dedos
contava o rosário da vida.
Viúva
do seu estado de ser
assumia.se.
À espera…
sentada
resolvia fingir
que
não
existia
o passado.
Jota Manuel
Palavras de Maria José, Jota Manuel e Antónia Gonçalves, obrigado.
Arame.
Sentia-te dura… agressiva até,
para com a minha pessoa.
Almejava-te sentir de novo
nem que enferrujasse o meu sentimento.
Naquela cerca de arame farpado
ficou presa a manga da sua blusa
e o seu destino, a bem dizer…
Riu – não sabia se da blusa
que teria que substituir,
se da vida,
à qual teria que dar outro rumo.
Soltou, com cuidado,
a farpa,
prendeu,
com afinco, a vida e,
transposta a cerca,
seguiu o caminho
em direcção ao aroma
sempre amargo das giestas.
Volta para me enleares, por favor.
Elevo com frequência descomedida
o trapo desta blusa rasgada…
mas com cheiro de ti.
Qual giesta
no espelho
das emoções
te revejo.
Fazes me falta.
(Jota Manuel e Lu Félix) 20110313