Category: Livros

Caderno de memórias coloniais

Há quem tenha blogues que ninguém lê e quem invente todos os dias “Novos Mundos” . A diferença está apenas no talento e no modo como se escreve. Sim,  porque isto de escrever não é para todos…

Sigo o “Novo Mundo“, da Isabela Figueiredo, desde o tempo em que o mundo ainda era perfeito.

Adoro a frontalidade e o sentido de  o humor desta mulher que trabalha numa fábrica de parafusos, aparafusando cada um deles como se fosse o único…

Agora lançou o seu segundo livro, “Caderno de memórias coloniais“, que vai já na segunda edição.

Vai apresentá-lo nas seguintes datas datas e locais:

Lisboa – Livraria Pó dos dos Livros – dia 21 de Janeiro – 18h30 – apresentação de Eduardo Pitta
Coimbra – Livraria Almedina Estádio – dia 30 de Janeiro – 18h00 – apresentação de Margarida Calafate Ribeiro
Almada – Livraria Fnac Almada Fórum – dia 6 de Fevereiro – 18h00 – apresentação de Francisco José Viegas.

Conto ir a Lisboa ou a Almada para recolher o meu autógrafo…
claro que não direi que tenho um blogue que ninguém lê, porque isto ao pé de blogueiras famosas causa algum embaraço!

Muita sorte com o livro, Isabela, porque talento…. não lhe falta!

memoriaslx

Felicidade, dignidade e liberdade…

leitor

“- Já não te recordas de como te  aborrecias quando eras pequeno, quando a mamã, para teu bem, te obrigava a fazer qualquer coisa que não querias? Até que ponto teremos nós o direito de o fazer com as crianças? É um verdadeiro problema. Um problema filosófico, mas a Filosofia não se ocupa das crianças. (…)

- Mas…

- Mas, no caso de adultos, não encontro com facilidade justificação para impor a alguém algo que o outro acha que é bom para ele, preterindo que o primeiro acha que é bom para si próprio.

- Nem quando mais tarde ficam felizes com isso?

Ele abanou a cabeça.

- Nós não estamos a falar sobre a felicidade, mas sim sobre a dignidade e a liberdade. Já em criança conhecias a diferença. Não te consolava nada que a mamã tivesse sempre razão.”

O Leitor, Bernhard Schilink, Edições ASA p.93

Viúva por um ano.

viuva_anooNão chores, querida – disse Marion à sua filha – Sou só eu e o Eddie

É assim que acaba o romance de John Irving. É esta a última frase deste livro de mais de 600 páginas , pelo menos na edição portuguesa da ASA, em inglês deve ter umas 400!. Em 600 páginas, o autor conta não uma, mas várias histórias… A primeira parte do livro deu mesmo origem a um filme (A porta no chão).

Quando a frase é dita, no final do livro, Marion tem 76 anos e a filha 40. Eddie tem  52. A mesma frase tinha sido dita, por Marion, à filha, 36 anos antes. Tinha sido dita muitas páginas e muitas histórias antes, quando era Marion que tinha 40 anos, a filha 4 e Eddie 16.

Ao ler a frase, esta manhã, pensei que nunca tinha lido um livro que acabasse com uma frase tão bem escolhida! No  final, depois de 36 anos, de muitas páginas, de muitas histórias, o essencial mantém-se… continua a ser apenas  Marion e Eddie.

É um romance estranho, onde as personagens principais são todas romancistas. Nem todos com o mesmo sucesso, claro… Mas todas as personagens principais escrevem romances e as secundárias, pelo menos, lêem-nos!

Algumas das personagens escrevem para expiar pecados antigos, outras para contar a sua vida, não conseguindo escrever mais que  auto-biografias camufladas de romances. Ruth, a filha de Marion, consegue ser a escritora de maior sucesso, conhecida mundialmente pelos livros que escreve onde, mais uma vez, as personagens se baseiam  nas suas vivências e nas da sua melhor amiga!

Não sei o que será um romântico, mas já me acusaram de, por vezes,  confundir a vida com um dos romances que leio… Não tenho tido muitas histórias, diga-se em abono da verdade. Não tenho também o talento para escrever romances autobiográficos , mas admiro os romancistas, como Ruth, ou Eddie e Marion, que conseguem escrever nos livros o que o mundo foi ou poderia ser…. se fosse perfeito!

Invejo os romancistas que conseguem escrever histórias de amor que resistem a 36 anos de separação… Gostava que a minha vida um dia, ou que a maioria das vidas, pudessem também inspirar histórias. Histórias onde, no final, as mesmas palavras pudessem ser repetidas.

Wilt

wilt“Cada vez que Henry Wilt levava o cão a passear ou, para ser mais preciso, o cão o levava a ele, ou, para ser exacto, a Srª Wilt os mandava a ambos, a fim de poder fazer os seus exercícios de ioga, Wilt seguia sempre o mesmo caminho. Na realidade, o cão seguia esse caminho e Wilt seguia o cão.”

É assim que Tom Sharpe começa a contar a história de Wilt, um professor inglês que depois de dar aulas a turmas de Instaladores de Gás, Mecânicos,  Secretárias  e Talhantes volta para casa onde a Srª Wilt o espera com as suas manias das limpezas e outras taras.

Este é primeiro romance de uma série, já escrito em 1976 mas muito, muito actual e sobretudo muito divertido.

Anos de exposição a estas turmas, e de convivência diária com Eva Wilt, tornam Henry imune aos interrogatórios da polícia e, mesmo depois de uma semana de interrogatórios continua a ser ele a dominar a situação. No instituto onde dá aulas começam a sentir a sua falta e sobretudo a dar valor ao seu trabalho à medida que descobrem que não é fácil de substituir.

Uma obra a não perder, se gosta do humor britânico (um pouco ao estilo dos Monty Python) ou simplesmente se é professor, tem turmas difíceis, e pensa que não pode aprender nada com os seus alunos!

A vida em surdina

VidaEmSurdina_180Dizem que não há amor como  o primeiro e talvez tenham razão.

A verdade é que tenho gostado de cada livro que leio do David Lodge mas… mas de nenhum como do primeiro!

O primeiro livro  que li, deste autor britânico, foi “Notícias do Paraíso”.

Penso que nem seja o mais conhecido, mas tocou-me pela simplicidade da escrita associada à exposição de sentimentos profundos e complicados  com uma pitada de humor. Tocou-me porque nele um homem da minha idade renasce para a vida… Foi  uma das manas que o emprestou mas ainda o  compro um dia para o reler e ter o prazer de o  ter na minha estante.

Esta pequena reflexão serve apenas para me convencer a mim próprio… Será antes “não há amor como o último”?

O último acabei de o ler ontem.

“A vida em surdina” tem  tudo o que esperaria do autor. Conta-nos uns meses na vida de um professor universitário que se reformou antecipadamente e que agora sente falta do frenesim da vida académica. Faz do professor o narrador da história e é este  que nos vai contando as suas aventuras e desventuras na primeira ou terceira pessoa.Vive a vida em surdina, uma vez que a reforma antecipada foi motivada por problemas de  audição. As conversas que tem,  ou tenta ter, as suas relações com a mulher, com o pai, com os filhos, colegas e também com uma jovem aluna fazem-nos reflectir sobre a condição humana nos últimos anos de vida… quando a “máquina” começa a falhar.

Sempre cheio de humor lembra-nos que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas isso é apenas um pequeno pormenor.

Se ainda não leu nenhum livro do autor compre este… Verá que um dia, quando inevitavelmente ler outro, dirá também  que não há amor como o primeiro! Se já leu… não posso garantir que goste tanto deste como do primeiro  que  leu… apenas que não o  desiludirá!

Um homem muito procurado

John le carreAcabei de ler “Um homem muito procurado” de John le Carré. Dizer bem do livro de um dos meus autores preferidos seria fácil… Já sabia que gostaria antes de começar, antes de saber o tema, antes de saber sobre o que o mestre escreveria desta vez…

Vemos os telejornais, lemos as notícias nos jornais, e ficamos com a sensação (eu fico) que estamos a ver a ponta de um icebergue. Por detrás de cada notícia há geralmente vidas.

Um romance, é um romance e este não foge à regra. As personagens saíram da mente (brilhante) do mestre… Trata-se de ficção. Mas, mesmo assim, depois de o ler não posso deixar de pensar que muitas vezes a ponta do icebergue nos basta para julgarmos, para apontarmos o dedo, mesmo sabendo que essa ponta já foi pintada, que já nem branca é. Que, em alguns casos, pode já nem ser representativa da imensidão de gelo que ficou submergida.

Ao longo das 365 páginas John le Carré fala-nos de um homem que quer ser médico. De uma advogada, de um banqueiro e claro de muitos espiões de vários países.

No fim não podemos  deixar de nos questionar sobre quem são os bons e os maus da fita. Se o homem muito procurado, que todos sabiam onde estava, não acabou por passar um dia pelas  Lages, se não o vimos, num qualquer telejornal, vestido de laranja lá para os lados de Cuba…

Por mim, tenho agora mais uma razão para não julgar os outros pelos poucos segundos que me mostram das suas vidas. Sempre achei que, na maioria das vezes, sabemos pouco da vida das pessoas para as julgarmos, para atirarmos a primeira, ou a última, pedra.

Um romance a ler, como todos os outros do autor!

A Educação Sentimental.

9789896410391Estava ontem sobre a minha secretária quando cheguei à escola. Abri e nas primeiras páginas uma dedicatória. Uma amiga, que muito admiro, tinha-se lembrado que envelheci. Transmontana, como eu, mas muito mais trabalhadora, foi uma ajuda preciosa na altura de rever meticulosamente um trabalho académico que fiz e por isso, e por tantas outras coisas, estarei sempre grato.

O título deixa-me curioso. Trata-se de um clássico, disse-me, gostei dele e marcou-me quando o li, há muito tempo.

Embora ande bastante preguiçoso, no que a  leituras diz respeito, este verão atacarei  “A Educação Sentimental”, até porque penso que os sentimentos também se educam e, mesmo que venha a descobrir que sou um grande mal educado, ainda estarei a tempo de ajudar a educar o A. e a I. para que não tenham medo de sentir, de ousar ser felizes mesmo que, por vezes, cheguem à conclusão que, como a andar de bicicleta, também se podem dar umas pequenas quedas pelo meio!

Obrigado Ana, também tu és uma amiga muito, muito especial para mim!

O Menino de Cabul

A Clo tinha-me dito que estava entre os seus livros preferidos! Trouxe-o, há mais de um ano, e ali ficou a engrossar a “prateleira dos livros emprestados”.

Penso que, pelo menos uma vez, peguei nele e li uma página ou duas acabando por desistir porque, com certeza, não estava na altura certa para o ler. A verdade é que havia outros na lista para serem lidos na “prateleira de livros comprados que ainda não foram lidos”. É frequente comprar mais livros do que aqueles que consigo ler, embora saiba que, se tudo correr bem, serão lidos um dia!

Há uma semana ou duas alguém com quem já troquei alguns livros disse-me, à hora de almoço: Já leste o “Menino de Cabul”? Tens que ler…

Eram já duas opiniões, de duas pessoas que me conhecem, e que costumam saber do que é que eu gosto… A decisão estava tomada, seria esse o meu próximo livro de cabeceira!

Foi lá, na mesa de cabeceira, que o deixei agora… faltam algumas páginas para o acabar, talvez 10, e gostei tanto das que as precederam que  guardei estas para esta noite, se resistir até lá!

Se tivesse que lhe dar nome chamar-lhe-ia “Os meninos de Cabul”. Não conta a vida de um mas, pelo menos, de três meninos que passam parte das suas vidas em Cabul! O último, que aparece quase no fim do livro, é o sinal de esperança… Vem permitir a expiação das cobardias de um dos dois que começam a história! São três meninos de coragem que nos contam uma história de amizade onde não faltam também as mentiras escondidas durante uma vida inteira e os momentos dramáticos!

Baba, o pai de dois dos meninos, não era afinal tão perfeito como o filho julgava. Também ele, o homem forte e corajoso, tinha na sua história momentos de fraqueza, também ele tinha “pecados” que teriam de ser expiados, muito mais tarde, pelo próprio filho.

No ponto em que deixei o livro, o autor, Khaled Hosseini, avisa-nos que na os Americanos detestam que se lhes conte o fim das histórias. Utiliza para isso um episódio em que o protagonista conta, num clube de vídeo, o fim dos “Sete magníficos” a um desconhecido… Não sei se será um prenúncio para, também ele, não nos contar como a história acaba ou, se simplesmente, nos avisa que uma boas história não tem fim!

Uma boa história vale por si… Pelo tempo que dura. Todas as histórias continuam e por isso não tem fim…. Muitas chegam simplesmente a um ponto onde não vale a pena continuar a contá-las.. Chegam ao ponto onde acabam os contos de fadas tornando-se enfadonhos: “Casaram e foram felizes”…

Pelas folhas que me faltam ler, tenho quase a certeza que não seguiremos a vida deste terceiro menino como seguimos a do primeiro… Aquele que se torna escritor, aquele que sempre foi corajoso, embora nem sempre tenha sabido que o era!

O “Menino de Cabul”  já foi  lido por milhões de pessoas em todo o mundo e a história já foi passada, em 2007, para o grande ecrã… Como muitos outros livros, penso que terá partes de ficção e partes retiradas da própria história do autor. Uma história que nos fala do Afeganistão e dos conflitos que por lá passaram e que infelizmente não acabaram ainda. Que nos fala dos costumes e põe o dedo  em feridas que o seu próprio povo gostaria que não fossem divulgadas a nível mundial.

Um livro que nos fala de amizade, de coragem, de lealdade e de cobardia! O primeiro livro, escrito em inglês, de um jovem escritor que, como um dos meninos que retrata, tem um dom especial para a escrita, fugindo sempre que possível dos clichés mas não os evitando quando é preciso!

Obrigado Clo… Sei que sentes falta dele na tua estante… por mim pode voltar para lá em breve… Um dia gostava que o A. e a I. o lessem também.  Julgo que ainda é cedo para os dois e por isso um dia destes  haverá certamente um exemplar na estante dos “Livros que gostaria que os meus filhos lessem um dia”.

After Dark – Os passageiros da noite

A culpa foi dela.

Ju, chamemos-lhe assim!

É minha irmã e tem por hábito “apresentar-me”  escritores de que venho a gostar.

Este Natal, trocamos livros, como já vem sendo hábito… A ela calhou-lhe, da minha parte, o último do John le Carré e a mim  After Dark – Os passageiros da noite, de Haruki Murakam.

Já tinha reparado na FNAC na quantidade de livros editados, pela Casadasletras, deste autor nipónico… São seis, pelo menos, e parece que vendem bem, ou, pelo menos, estavam com um grande destaque na loja…

Já o li, manecas. Gostei!

Tudo se passa numa única noite…

O autor tem uma escrita que nos prende. Gostei dos diálogos e sobretudo  do modo como constrói as personagens. Não sei se compreendi tudo, talvez um dia o leia de novo, quem sabe… Penso que ficaram umas quantas pontas soltas mas que não foi por acaso… Todos podemos imaginar o que se passou a seguir, afinal o autor contou-nos apenas uma noite na vida das personagens.

Por mim, fiquei convencido… Uma noite apenas e convenceu-me!

Quando ia arrumar o livro na estante descobri outro dele… Já estava por lá desde o verão, integrado na colecção “oferecida”, por mais um euro, pela Sábado.

Chama-se “Sputnik, Meu amor” e o nome não me era estranho, penso que até já foi adaptado ao cinema… No entanto, só agora associei ao autor…

Já está a meio, na minha mesa de cabeceira. Estou a gostar… Felizmente a acção decorre em mais que uma noite e até em mais que um continente…O estilo mantém-se. Quanto a pontas soltas, no final…. só daqui a uns dias o saberei…

Obrigado Ju, acertaste… mais uma vez!

Ps. Nem sei porque escrevo isto aqui… a Ju raramente lê o mail e desconfio que nunca aqui veio! Talvez a Clo lhe conte e me surpreenda com um comentário… Afinal temos que acreditar nos milagres!

O Amante

Chegou à minha estante numa colecção oferecida, ou vendida  a preço  simbólico, por uma revista semanal. Comecei a lê-lo por estar escrito em caracteres grandes, fonte 13 ou 14 no mínimo, e ser pequeno. Mais por isso que pela  rapidez com que leio acabou num instante. Se o nome da autora não estivesse escrito na capa diria que tinha sido a ~CC~ a escrevê-lo. Tenho a certeza que um dia terá o o seu nome na capa de um romance tão lido como este. Um dia todos diremos: eu já gostava do que ela escrevia na sua Ardósia Azul. No livro as personagens vão sendo construídas aos poucos e é também aos poucos que a autora nos fala de formas de amar que podem, à primeira vista, não ser fáceis de entender mas que assume ter vivido na primeira pessoa!

Gostei do livro de Marguerite Duras, agora espero pelo teu onde reúnas as histórias de Almar, de castelos e princesas ou tantas outras que, tenho a certeza, povoam a tua imaginação!

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