Viúva por um ano.
“Não chores, querida – disse Marion à sua filha – Sou só eu e o Eddie”
É assim que acaba o romance de John Irving. É esta a última frase deste livro de mais de 600 páginas , pelo menos na edição portuguesa da ASA, em inglês deve ter umas 400!. Em 600 páginas, o autor conta não uma, mas várias histórias… A primeira parte do livro deu mesmo origem a um filme (A porta no chão).
Quando a frase é dita, no final do livro, Marion tem 76 anos e a filha 40. Eddie tem 52. A mesma frase tinha sido dita, por Marion, à filha, 36 anos antes. Tinha sido dita muitas páginas e muitas histórias antes, quando era Marion que tinha 40 anos, a filha 4 e Eddie 16.
Ao ler a frase, esta manhã, pensei que nunca tinha lido um livro que acabasse com uma frase tão bem escolhida! No final, depois de 36 anos, de muitas páginas, de muitas histórias, o essencial mantém-se… continua a ser apenas Marion e Eddie.
É um romance estranho, onde as personagens principais são todas romancistas. Nem todos com o mesmo sucesso, claro… Mas todas as personagens principais escrevem romances e as secundárias, pelo menos, lêem-nos!
Algumas das personagens escrevem para expiar pecados antigos, outras para contar a sua vida, não conseguindo escrever mais que auto-biografias camufladas de romances. Ruth, a filha de Marion, consegue ser a escritora de maior sucesso, conhecida mundialmente pelos livros que escreve onde, mais uma vez, as personagens se baseiam nas suas vivências e nas da sua melhor amiga!
Não sei o que será um romântico, mas já me acusaram de, por vezes, confundir a vida com um dos romances que leio… Não tenho tido muitas histórias, diga-se em abono da verdade. Não tenho também o talento para escrever romances autobiográficos , mas admiro os romancistas, como Ruth, ou Eddie e Marion, que conseguem escrever nos livros o que o mundo foi ou poderia ser…. se fosse perfeito!
Invejo os romancistas que conseguem escrever histórias de amor que resistem a 36 anos de separação… Gostava que a minha vida um dia, ou que a maioria das vidas, pudessem também inspirar histórias. Histórias onde, no final, as mesmas palavras pudessem ser repetidas.
Publicado em: 16 de October de 2009










