A moça das unhas cor de rosa

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(Era eu a moça dos bailes, a das unhas cor de rosa, era eu a que dizias amar.)

A minha aldeia fica entre quatro vilas e em cada vila há um baile de bombeiros. A minha aldeia fica no meio deste quadrado de vilas, em cada uma delas era eu a moça das unhas cor de rosa. Um baile por cada Domingo do mês numa vila diferente. Quatro vestidos, todos os que eu tinha. E sempre o verniz rosa, igual aos meus lábios e ao meu cheiro.

(Cheiro como os meus lábios, se é isso que queres saber sobre a minha pele.)

Na minha aldeia eu era a dona das estufas, herdadas com apenas 18 anos. Herdei-as quando os meus pais não regressaram numa noite demasiado escura, foram engolidos por uma curva da estrada. A herdeira das estufas de flores era uma mulher um bocadinho cheia de mais, morena como uma azeitona, eternamente enfiada nas suas galochas de borracha preta. Eu era demasiado nova para estar com os adultos e demasiado velha para estar com os jovens. Quando fiz vinte anos, olhei-me no espelho e vi uma figura tosca, uma rosa murcha antes do tempo, tal e qual como as flores das minhas estufas, eram desenhadas para adornar vivas as festas e morriam logo no dia a seguir. Foi nesse dia que fui procurar um vestido ao armário da minha mãe e me enfiei nele, depois foi fácil procurar as pinturas. Experimentei uma a uma até encontrar aquele tom rosa. Depois decidi tornar-me mulher bela um dia por semana e regressar na Segunda à minha figura. É como um teatro, só que somos nós que o vivemos. E é bom, é a melhor brincadeira que existe. Até um dia, ao dia em que queremos dizer quem somos e já não conseguimos, até ao dia em que queremos desistir e não sabemos como.


(Sou eu meu amor a moça que dança na tua terra no terceiro Domingo de vez)

Queria dizer-te, mas não sou capaz. E hoje é domingo, olho as minhas unhas descoloridas e os meus lábios sem sabor nem cheiro.
~CC~

A  ~CC~ preferiu escrever sobre esta foto. Claro que pode escrever sobre qualquer foto. Afinal o ninguém lê foi o primeiro blogue onde escreveu… O estilo é inconfundível, a cada texto, leva-nos a mundos que existem na sua imaginação e que transforma em bits. Um dia, tenho a certeza, estas ou outras passarão a livros. Uma escrita mágica, que podemos seguir com mais regularidade na sua Ardósia Azul, agora que tem um canto só seu.
Obrigado pelo texto.
Ps. Se mais alguém quiser escrever sobre esta foto, ou qualquer outra, os textos serão bem-vindos… Afinal aqui ninguém lê mas todos podem escrever!
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2 Comentários

  • By CCF, 17 de Abril de 2009 @ 14:29

    Obrigado meu querido amigo!
    Isto é mesmo coisa de uma moça quase sem unhas :) ))
    ~CC~

  • By CristinaGS, 17 de Abril de 2009 @ 20:50

    Colaste-te bem à imagem. Boas danças ;)

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